Você tem fé em quê?
O ser humano abusa do verbo
acreditar de forma banal e literariamente iletrada, até obcecadamente cega.
Isso se justifica quando se tem fé, por exemplo, na humanidade. Ao ponto, por
exemplo, de imaginar um ser que está destinado a salvar o mundo do mal. Criar
super-heróis que nutrem a ideia de destino, de salvação. Se você tem fé em, por
exemplo, qualquer tipo de entidade, seja humilde, sagrada, ou endeusada, não há
desculpas: você está cego racionalmente. Está cego pelo instinto. Pois ser
racional é, por exemplo, matar o seu instinto e sempre, sempre questionar tudo.
E de tanto questionar, por exemplo, perder a fé.
Eu perdi a fé em tudo - exemplificando.
Perdi a fé ao ponto de querer ter
fé, criar fé a partir da esperança de me sentir feliz novamente. Pois a
felicidade é uma carta traiçoeira. Anda como uma bela moça, que caminha
formosa, quase angelical - uma vez se esbarra por ela, noutrora se torna
inesquecível, mesmo que de relance. Seu cheiro, seu jeito, dá nostalgia. Nunca
se deixa de sonhar com a bela carta da felicidade. Mas é como uma droga. Uma
vez que ela some, deixa em você seu mais puro nectar: vicia-te eternamente.
Faz-te achar vertigens em todas as esquinas. Encontra-se com todas as moças,
trocas moças aos montes, e tentas compara-las a ela. Nunca te torna satisfeito,
mas iluso.
Ilusão é o relevo que não lhe
mostra quando contornar, mas sempre tropeçar e afundar, até enterrar-se em
delírio.