segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Provenientes de mim e Lispector



Aguardar nunca me foi dom dado. Aguardar não somente o tempo mas tudo dentro de seus signos. Um ano pode se tornar tão quanto oito segundos através da emoção de seus intervalos, somos fruto da árvore de intervalos de nosso tempo e tudo o que fazemos é nos colecionar.
Enquanto estive ali por colecionar segundos andei balbuciando possibilidades de mais e crucifiquei-o por todas as batidas do ponteiro. Como ousa deixar-me aguardar bem logo quando lhe disse para não o fazer. Esquematizo sempre os meus compromissos para não passar por delongas, economizo até em palavras por isso – lacônica. Mas então ele utiliza da ousadia como se não fosse completamente familiarizado a mim. Penso em segundo plano, pois nunca penso que o primeiro irá me desapontar e o ponho em pratica sem hesitar. Nunca planejo o depois então sempre o deixo para cima da hora, com a pele aos nervos. Balaço os dedos como se fizessem ondas no ar, e utilizo da dispersão em prol da construção de juízo. Os ombros continuam firmes, sempre o foram, nunca os deixei que massageassem, mas naquele momento mais que o natural.

“Onde ele está?

Será que desistiu?

Estou somente criando expectativas?

Estou iludida?” Paro para recapitular, ele não disse a mim certezas, mas só jogou expectativa. Brincou com a minha expectativa. Então como num sonho recapitulo "Devo aparecer por volta das oito, se a greve de transportes se cessar. Se não, um amigo deve ceder o lugar em seu carro, pois me disse ir para esse lado.."
O verbo dever possui uma conotação extremamente desanimadora, uma vez que utilizada em todas as suas variações: Dever favores, dever riquezas ou dizer que deve paga-las assim que possível, pois seus próprios devedores devem paga-lo. Pensar que ele deve chegar pois seu amigo deve dar-lhe carona ou seu ônibus deve colher lhe é a minha maior tortura, não existir previsão de tempo para nada. Começo a me soltar, começo a soltar a cabeça e todas as esperanças e me agarro a realidade mais crua: Ele não vem. Começo a andar para o banheiro e me olho no espelho. Percebo todo o esforço para essa realização de combinações, e o quanto pareço pronta. Me analiso em mais cinco minutos e concluo: “Devo sair só?

Devo sair só.” Imponho uma conotação completa e extremamente positiva à palavra, fazendo-a parte de minha força e iniciativa. Desativo as energias e tranco o apartamento, agarro as rédeas da vida e vou de encontro à possibilidades e, quando encontro-me realizada com todas as novas expectativas, quando obtenho controle pleno do meu tempo, quando me encontro mentalmente estabilizada é quando o maldito chega.

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